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Excerpt for Olhos Verdes - Scrupulo Séries by , available in its entirety at Smashwords




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Sumário




OLHOS VERDES



“Meu Senhor, livrai-me do ciúme! É um monstro de olhos verdes,
que escarnece do próprio pasto que o alimenta”
Shakespeare



A vida de Claudia mudara drasticamente, quando trocou São Paulo por Nova Iorque, em vários aspectos: sociais, financeiros e amorosos.

E agora, outra grande mudança se aproximava; estava trocando um apartamentinho de três peças no Harlem por um duplex em Tribeca, via sua relação com o honesto detetive da homicídios sofrendo interferências por conta de investidas de seu chefe suspeito, e a única coisa que se mantinha firme era sua amizade com Rebecca Stein, que conheceu poucos meses depois de sua chegada na cidade, quando trabalharam para o muquirana e explorador Vitti, chefe de uma empresa de contabilidade que cuidava de vários depósitos e empresas portuárias de atividades questionáveis. Ou seja, não era bem de hoje que ambas se envolviam com empresas que eram suspeitas. Mas diferente de um escritório chinfrim de contabilidade, a Blue Velvet era uma multinacional do ramo de segurança e tecnologia, mesmo que “modesta”.

Possivelmente não tivesse mais de dois meses de trabalho com a empresa e, além de ter assumido o cargo de chefia da contabilidade – onde tinha um gordo salário que ultrapassava os cem mil dólares anuais facilmente –, contava com uma série de benefícios que incluía um carro a disposição, estadia gratuita em um dos milionários apartamentos funcionais da empresa e também um segurança vinte e quatro horas.

Claro que parte disso era devido a sua competência profissional, mas há de se dizer que alguns outros – em especial, o segurança – eram provenientes de um acordo que a empresa ofereceu após Claudia e algumas outras pessoas envolvidas com a empresa (incluindo Rebecca) terem sofrido um sequestro atribuído a organizações espiãs criminosas que tinham por intuito afetar a empresa – de estrita relação com agências de segurança governamental estadunidenses.

À parte isso ou por causa disso, Claudia Cazarotto e sua amiga Rebecca Stein receberam vários benefícios.



Claudia estava agora se adaptando à rotina na empresa, sem surpresas desagradáveis nesses vários dias que se seguiram.

Seria a última semana em seu antigo apartamento, e estava uma pilha de nervos, dividindo sua atenção com a organização da mudança, o trabalho e pensamentos sobre as coisas que Maguire, seu amigo – e amante – detetive, falava acerca do possível envolvimento ilegal de chefes da empresa com o crime organizado e a prisão de alguns deles no passado, os perigos que talvez a rondassem, o quanto seus pais deviam estar preocupados com a falta de notícias, que bicho picou sua melhor amiga – que agia estranhamente, evitando-a há dias – e especulações sobre as intenções de seu chefe, Seth Cunnings.

— Senhorita Cazarotto, Senhor Cunnings na linha.

Estava bom demais para ser verdade.

— Sim, Cunnings?

— Cazarotto, precisamos conversar sobre um assunto do seu interesse. Tem um tempo agora depois do almoço?

— Ahn, tem que ser agora?

Claudia se recriminou mentalmente. Isso não era coisa que se falasse para o chefe, mesmo que ele tenha sido preso.

Jesusmariajosé, Maguire afirmou que o homem foi presidiário e você ainda responde isso pra ele? Claudinha, você já teve mais juízo...

— Sim. Quero falar antes da minha viagem.

— Oh... você vai viajar?

— Sim.

Claudia faz uma pequena dancinha com os pés debaixo da mesa, comemorando e torcendo pra que ele fique fora bastante tempo.

— Cazarotto?

— Ah, sim claro! Onde nos encontramos?

— Às duas horas, no café da esquina, sabe qual é?

— Sei. Até lá.

Caminhou até o local do encontro marcado com a voz rouca de Maguire ecoando em sua mente, nitidamente “ele já foi preso. Parece gente boa, mas é bandido! O irmão está preso por assassinato. Suspeito de envolvimento com a máfia” e “nosso chefe é um Gângster” essa última era a voz de Rebecca.

A filha da mãe estava certa desde o principio!

Quando entrou no café, viu Cunnings sentado em um canto. Ela caminhou até ele, já esperando qualquer coisa, afinal de contas...

Cumprimentaram-se e ele a convidou a sentar. Claudia aguardou em um silêncio apreensivo o que o diretor diria.

Ela parecia distante e séria. Um nítido sinal de posição defensiva. Seth foi pego de surpresa, pois depois da última vez que se viram, pareceu que ela estava mais à vontade com ele. Sua confusão fez com que ele demorasse a iniciar o assunto.

— Ã-Hãm – pigarreou – Eu... pedi que saísse da empresa pois... hum. Não quer pedir alguma coisa? – Seth fez um sinal e prontamente apareceu um garçom. E logo os dois olharam para ela.

— Um... Café. Obrigada.

Seth a encarava com um sorriso no canto do lábio, olhos apertados e a cabeça levemente de lado. Parecia calmo, mas estava irritado. Claudia sentiu o mau humor dele sem querer, apertou os lábios e engoliu em seco. Já viu essa cara dele antes e ela precedeu um dos raros “esporros” que Cunnings deu e que ela teve a oportunidade de presenciar. E pensando bem, não lembro de ter cruzado outra vez com aquele cara na empresa, depois disso! Meu deus do céu!

— Precisava falar algo de caráter... pessoal?

Claudia abriu um grande sorriso simpático, tentando disfarçar o nervosismo.

— Uhm. Estou correto em presumir que é amiga pessoal da senhorita Stein, imagino.

— S-sim. Precisamente.

— Esses dias ela chegou atrasada. Passou por mim no corredor.

— ...

— Você não reparou, reparou Cazarotto?

Seth falava com Claudia sem a olhar. Em vez disso, se concentrava em mexer seu café, afastando a escassa espuma do expresso.

— Sobre... o... o atraso? Bem... infelizmente deve ter sido um dia que não coincidimos. Mas posso afirmar que ela é muito comprometida e que se houve atraso, certamente teve um bom motivo.

— Sei disso. Por isso pergunto. Notou algo estranho nela? Um comportamento...

Ai, gente. Ela sempre foi meio fofa e esquisitinha! Do que esse homem está falando? E por que não olha pra mim e fica fazendo esse ar blasé? Você tá me deixando nervosa!

Claudia conseguiu apenas soltar um “Pff” que saiu sem querer junto com uma expressão espontânea e nervosa de confusão. Ao que ela emendou um levantar de ombros e uma risada nervosa que saiu quase histérica ao falar:

— Mas que tipo de comportamento seria?

Seth tinha acabado de colocar a xícara na mesa após um pequeno gole de café. Levou as costas do dedo indicador aos lábios, em um típico gesto pensativo muito comum a ele, confortavelmente sentado com as costas apoiadas na elegante cadeira do café, frequentado por pessoas ricas. Claudia notou que o pé da perna que estava cruzada, balançava discretamente. Ele parece estar pensando no que falar, dadas sobrancelhas franzidas em sinal de dúvida. Até que a encara com seus olhos escuros apertados.

— Sei que não é da minha conta, mas... – ele agora senta mais reto, apoiando os cotovelos na mesa enquanto enlaça os dedos à altura do queixo (sem encostar) - ...Me sinto responsável.

— Mas o que há de errado? – Claudia demonstra preocupação.

Seth se mostra levemente desconfortável. Apertou os lábios antes de falar, e diminuiu o volume da voz:

— Talvez... Talvez. Ela possa ter algum problema com o Scaffa. Ela comentou algo?

Rebecca não havia contado diretamente para Claudia sobre seu novo relacionamento. O porquê disso, ela não sabia, mas haveria de considerar que ambas estavam em uma correria com as recentes mudanças em suas vidas. Mudanças essas drásticas o suficiente para que as fizessem dispensar atenção quase exclusiva a seus afazeres pessoais.

Claudia imaginava que iria apenas preencher um protocolo ao ir naquela festa em nome da empresa, sem grandes surpresas, mas não foi o que aconteceu. Deu de cara com a amiga e seu novo par. Claro que no momento nada além das apresentações podia ser feito.

— Com... o... aquele cara que vimos... no...

— Sim. Não quero alarmar você, nem a ela, se eu estiver errado (E eu espero que esteja), mas... hum. O Scaffa tem um histórico delicado...

Meus deus, não me diga que esse homem é...

— ... de violência doméstica.

— Cof! – engasgou com o café que tomava para disfarçar a ansiedade – como é? Isso, é sério? Como sabe?

Seth faz um gesto pedindo calma. E logo volta a falar:

— Ele é conhecido de alguns contatos e associados meus. Sabe? As pessoas comentam, mas nunca ninguém viu e... bem, penso que se eu sei de algo que pode prejudicar alguém que conheço, o melhor é alertar de alguma forma essa pessoa.

— Sim, claro.

— Mas não tenho proximidade com ela, então... achei que seria melhor falar com você. Talvez não tenha acontecido nada, mas dado o histórico... Se fosse alguém da minha família ou amigo, eu gostaria de saber.

— Você está completamente certo Seth! Eu... estou chocada, na verdade.

Seth tomava café e no momento em que a ouviu falando seu nome, levantou uma sobrancelha, comedidamente surpreso.

— Ele já foi casado... A esposa se separou e desistiu de levar a queixa em frente. A família dele o apoiou. Uma lástima. Família deve dar suporte sempre, mas também deve corrigir, não é mesmo?

— Ora... Eu penso que... sempre achamos que nunca acontecerá perto da gente. Que o nosso convívio jamais será atingido por algo abominável. Creio que as pessoas não aceitam que um ente querido praticará algum mal justamente pelo mesmo motivo.

— Faz todo sentido o que disse. Infelizmente é lamentável.

— Bem... Se tiver acontecido algo, certamente eu vou descobrir – retomando seu controle e gentileza habitual, ela o olha com gratidão – graças ao seu aviso. Muito obrigada!

Aquela expressão sincera e a preocupação com a amiga o fez estremecer.

— Não me agradeça, cuidamos dos nossos. Além do que, desprezo homens assim. – ele sorriu por educação. Levantou-se ajeitando o terno. Colocou a mão no bolso – fique atenta, Scaffa é um homem perigoso. Avise-me diretamente se precisar de algo. Até.

Cumprimentou com um rápido aceno com a cabeça e saiu com seu andar reto e altivo, mal dando a chance de ela agradecer a oferta de auxilio.



A forma como se conheceram não poderia ter sido mais interessante.

Durante a festa da empresa, Rebecca reparou em um belo moreno de traços bem delineados e másculos, em um belo terno. Charmoso como só um italiano poderia ser.

Enquanto reparava discretamente nele, seus olhos se cruzaram. Envergonhada por ter sido pega em flagrante, ela desviou imediatamente. O homem abriu um belo sorriso. A partir de então, trocaram vários olhares. E quando finalmente ela acreditou que ele iria até ela, percebeu que ele se retirou com os mesmos homens com os quais havia chegado à casa de Cunnings. Decepcionada, pode apenas se culpar por ser tão lerda no que tange às táticas de aproximação amorosa.

Algumas tantas semanas depois, não querendo ir imediatamente para casa a fim de evitar o trânsito, e não tendo a companhia de sua amiga – que andava às voltas com seu “amigo” policial e a mudança –, decidiu que iria matar o tempo em um pequeno café próximo ao trabalho. Infelizmente, era ainda muito nova na empresa para que se misturasse aos colegas que também frequentavam o local, sendo assim, resolveu sentar-se sozinha ao bar. No canto, como era de sua preferência.

Observava à sua volta e sentia vontade de se misturar as pessoas, de saber se envolver. Ela via como alguns simplesmente tinham uma desenvoltura admirável e desejava saber ser assim. De repente, enquanto se olhava no reflexo do vidro no fundo do bar, percebeu que um homem a observava. Era um homem pela faixa dos trinta e tantos, parecia simpático apesar dos óculos antiquados. Rebecca sentiu um certo furor, era sempre assim quando ansiava por um acontecimento. Tentou não olhar para o homem, enquanto reparava ele se aproximando e à medida que isso acontecia, ele se mostrava talvez não tão simpático. Porém, não estava em posição de se sentir mal com a iniciativa do sexo oposto.

Chegou a ouvir o cumprimento dele enquanto sobressaltava ao perceber uma presença do lado oposto.

Scusi...

Surpresa, Rebecca olha para o lado oposto ao que o homem se aproximava e vê ao seu lado o belo moreno que havia encontrado na festa. Seus olhos se encontraram por um segundo, ao que ele abriu um sorriso encantador, e em seguida fixou-se no homem do outro lado.

— Você vai me desculpar, amico – estufou o peito ao respirar – mas eu vi a moça primeiro – olhou para Rebecca ao completar a frase discretamente – há algum tempo...

O homem de óculos apenas sinalizou compreensão e saiu, certamente humilhado pela presença e estilo do adversário, que seria o suficiente para tirá-lo do páreo a qualquer momento.

Diante a expressão estupefata de Rebecca, chegou a perguntar se realmente ela se lembrava dele. Sem jeito, e incrédula pela situação ela começou a rir, levando a mão à boca para tentar esconder a reação espontânea.

— Desculpe. Sim, eu me lembro de você.

Ele fez um gesto expansivo de alívio.

Antonio Scaffa se apresentou, e foi bem claro que ele havia ficado encantado pela delicada elegância de Rebecca.

Claro que já passara por algumas histórias mornas e tantas decepções no campo amoroso, mas era seguro dizer que para ela, era a primeiríssima vez que se sentia tão realizada. Não bastasse a guinada na vida profissional, agora havia despertado o interesse de um homem que não poderia ter imaginado melhor em seus sonhos.

Ou na verdade, poderia. Pra ser mais exata, Rebecca sentia-se como uma das personagens dos romances que gostava de ler – para espairecer e odiar a realidade ao mesmo tempo –, incrivelmente tirada de sua vida sem graça por um homem másculo e cavalheiro, que a tratava como realmente merecia. E seria justo dizer que Scaffa pensava nela como uma pequena e delicada joia, ao rodeá-la de cuidados, algumas vezes até excessivos. Ela achava charmosíssimo esse “jeito italiano” de ser. Rebecca finalmente sentiu como se estivesse vivendo em um romance de banca de jornal, dos mais melosos possíveis, com o mocinho mais macho e gostoso que jamais existiu. Certamente, se sua história estivesse escrita, estaria fazendo algumas leitoras suspirarem.

Como não poderia deixar de ser, ele transbordava sensualidade. Mas era um homem paciente na medida: avançada apenas a ponto de ela se sentir desejada, mas não que se sentisse pressionada. Scaffa admirava o comedimento de sua garota. Porém, foi inevitável que algo acontecesse logo, afinal ambos se desejavam com muita ardência. Rebecca soube o que era estar na mão de um homem desinibido que sabia guiar o seu prazer. Nunca pensou que se deixaria largar tão facilmente nas mãos de um homem.

Mas Antonio Scaffa era diferente. Ele sabia fazer com que ela se abandonasse ao prazer e até a si mesma. E foi o que aconteceu bem mais rápido do que ela imaginou...




Claudia chegou ao departamento munida com algumas tantas guloseimas e uma garrafa de café. Chamou os colegas para uma pequena pausa à tarde, para que comessem e bebessem o que ela trouxe: “Quinze minutinhos numa sexta feira vão bem, não acham? É o esquenta do Happy Hour!”. Adoraram a pequena surpresa.

Logo os colegas se aproximaram, pegaram alguns dos quitutes e naturalmente, trocaram uns dois dedinhos de prosa entre eles. Claudia aproveitou para observar Rebecca e se aproximar dela. Não se surpreendeu por Seth estar certo sobre o comportamento estranho da amiga, que agora, de perto, ela via claramente, a surpresa foi pela habilidade que ele tinha em reparar as pessoas. E junto com isso, veio um sentimento de culpa. Afinal, como ela sendo a melhor amiga não prestou mais atenção? E se Rebecca realmente não falou nada para Claudia até agora, era sinal de que havia algo errado, realmente.

Utilizou o método de sempre: conversa fiada.

Um assunto leva a outro, e sem que Rebecca percebesse, Claudia conseguiu saber que hoje, ela estaria livre após o trabalho e que iria para casa. Deu um jeito de inventar uma visita e acabaram combinando de pedir comida em casa, lá no Brooklyn. Na hora da saída, Claudia surpreendeu Rebecca ao pegar carona com ela no mesmo carro. Assim, ela se veria obrigada a andar com Claudia do lado e desencorajaria qualquer alteração de programa. Pelo celular, Claudia avisa ao segurança, Jimmy, que iria para a casa dos pais da amiga e que ele fosse para lá mais tarde.


Pediram pizza e vinho, aproveitaram a ausência dos pais dela, que estavam em uma pequena viagem de final de semana, e ligaram o som nas alturas. Claudia finalmente ensinou um pouco de forró para Rebecca e elas se divertiram como não faziam há um bom tempo.

— Uns... dois meses, não é isso?

— Acho que até um pouco mais! Que loucura, parece mais tempo!

— Nem me fale! Ah, estou de mudança! Essa é minha última semana no apartamento lá improvisado! Você precisa conhecer o novo!

— Siiiiiim! Estou muito empolgada, também vou mudar! Esse financiamento da empresa é tudo de bom!

— Ah amiga, vá para Tribeca também! Ia ser demais morarmos perto!

— É uma ideia boa, não é mesmo? Você me mostra os apartamentos de lá que te passaram?

— Mas é claro! Agora, levanta Becky – Claudia levanta do sofá e abana as mãos com urgência – vem, vem! Estou alta por causa do vinho e quero dançar outra coisa. O que vai ser?

— Vamos de... Tunts Tunts anos 90 eu...

TRIIIIIIIIIM!

Foram interrompidas pelo som estridente da campainha.

Não faziam ideia de quem poderia ser. O som estava alto, mas não o suficiente para os vizinhos reclamarem. Rebecca correu para baixar o som e foi à porta em seguida.

Scaffa estava parado na porta, aparentemente de mau humor.

Rebecca leva um susto.

— Ahn... olá!

— Olá Becky. Como não respondeu minhas mensagens, fiquei preocupado e resolvi aparecer – percebendo Claudia na sala, amenizou a expressão e a cumprimentou forçosamente simpático: boa noite. Como vai?

— Bem, obrigada.

— Er... eu, estava distraída com minha amiga, não vi suas mensagens.

— Certo. Não tem problema, eu passei pra te buscar... uns amigos do clube marcaram em cima da hora, quero que você conheça algumas pessoas.

— A-Agora!?

— Sim.

Scaffa falou como se fosse perfeitamente normal chegar a casa de uma pessoa com visitas no meio da noite e pedir que ela fosse se arrumar para saírem juntos.

A reação de Rebecca foi de surpresa e embaraço. Estava na cara que ela não queria ir com ele, mas também era nítido que ela não queria recusar a proposta. Rebecca, com seu jeitinho ansioso olhava ao redor, como se buscasse em algum canto da sala alguma solução. Ela era completamente inapta para lidar com esse tipo de situação que exija resposta rápida.

Rebecca sentiu uma pressão absurda. A imagem dele lhe causava pânico, a ponto de não ter muita força para reagir. Se pudesse, simplesmente o faria sumir com a força do pensamento. Sentiu vergonha pela simples presença de Claudia ali, como se ela pudesse adivinhar o que lhe ia a mente. Ao mesmo tempo, não queria expor a amiga ao namorado, sabia que ele era perigoso e que Claudia tinha um temperamento forte. Amaldiçoou o dia em que aceitou aquela bebida e se encantou com aqueles olhos penetrantes.

— Ainda bem que foi em cima da hora, assim não vão ficar chateados dela não aparecer... – Claudia riu com toda simpatia - ... nós combinamos faz dias, não é Becky?

— Ahn, é – riu nervosa - ... fazia tanto tempo que não tínhamos um dia das meninas!

— Há há há, pode ser, mas... é importante que você venha – e virou-se para Claudia – São uns amigos influentes, vai ser bom pra ela profissionalmente.

— Ah, mas ela trabalha Na Blue Velvet, acho que você não sabe, mas nosso departamento está concorrendo ao Revelation Account Award, a empresa está liderando o ranking, então... acho difícil eles conseguirem superar essa oferta, não é Becky?

— Há há há, estamos mesmo muito bem! – ri forçosamente.

Seja lá o que for esse prêmio que nunca ouvi falar.

Completou em pensamento.

E chegou o momento que Claudia decidiu testar qual a influencia do chefe delas sobre o tal Scaffa:

— Imagina- a-cara do Cunnings se souber que querem roubar a nossa pequena Stein!

Scaffa sorri com a boca, mas os olhos parecem fuzilar Claudia. Rebecca percebe o descontentamento do namorado e se preocupa. Elas estavam sozinhas lá.

— Ora, você é chefe dela. Não sei se seria boa conselheira nesse assunto.

— Sei separar as coisas. E sou amiga dela, antes de tudo.

O clima pesou como chumbo. Claudia mantinha o sorriso por educação, mas Scaffa já estava com uma expressão menos amigável.

Ele notoriamente odiava ser contestado. Seu sangue fervia quando alguém o enfrentava, e por sua mente passou a ideia de que essa mulher precisava se colocar no lugar dela. Era uma péssima influência.

Rebecca sentiu um frio na espinha, parecia que a qualquer momento algo iria explodir. Quando o som estridente da campainha tocou novamente, ela deu um salto, literalmente.

Ao abrir a porta, viu um homem loiro alto e de terno. Parecia sério. Claudia se intrometeu ao ver a figura por cima do ombro de Scaffa. Passou por ele e foi até a porta.

— Este é Jeremy Russo, faz minha segurança. Olá Jimmy.

— Olá senhora. Só toquei para avisar que já estou aqui. Vou verificar o perímetro externo, mas estou ao alcance. Com licença senhoras, senhor.

Foi proposital. Claudia já sabia que Jimmy estava lá há algum tempo, pois ele mandou mensagem avisando. Porém, quando Scaffa chegou o rapaz estranhou e deu um jeito de se mostrar. Claudia desconhecia, mas foram passadas instruções para o guarda costas sobre possível aproximação de pessoas estranhas à casa da Stein. Quando ele identificou o carro como sendo de alguém da família Scaffa, já sabia que deveria ficar atento.

Scaffa se irritou ainda mais. Não estava disposto a deixar aquela mulher vulgar impedi-lo de levar sua namorada, tampouco queria fazer uma cena desnecessária ali. Ainda mais com um homem de Cunnings ciente de sua presença na casa. As relações da família às vezes lhe enchiam o saco. Olhou para o relógio, demonstrando interesse em sair. Foi até Rebecca, segurou em seus braços de forma firme e sutil, sorriu forçosamente e lhe deu um rápido beijo.

— Minha pequena, estou atrasado. Já que vai ficar, se cuide – levou o polegar ao queixo de Rebecca e o balançou, Encarando-a com olhar intimidante – mais tarde conversamos melhor.

Dirigiu-se à porta e ao passar por Claudia fez um leve aceno de cabeça, desejando boa noite.

Rebecca estava branca e parecia aérea. Não havia processado toda a situação.

Claudia observava a amiga e se sentia sem saber o que fazer. É sempre uma situação delicada, saber o momento de abordar um assunto difícil.

— Er... acho que ele não gostou muito de mim – deu um sorriso amarelo.

— Hã? Ah... não... imagina!

— Desculpe não ter sido mais legal com seu namorado.

— Ah, Claudia... não se culpe, ele... só... não ligue, não ligue! – riu, tentando disfarçar.

Rebecca se levantou com a desculpa de pegar mais bebida na cozinha. Claudia apenas ficou sentada, pensando. Rebecca voltou com mais uma garrafa de vinho e serviu as duas taças. Sentou-se ao lado de Claudia. Ficaram assim, bebericando em silencio por quase cinco minutos.

— Eu tinha uma amiga no Brasil... na época que estava me formando, mais ou menos... que tinha um namorado que morria de ciúmes da nossa turma – sorriu sem mostrar os dentes.

Rebecca apenas virou sua cabeça para a direção de Claudia.

— Quando ela começou a namorar estava tão feliz. Estávamos nos formando, prontos pra conseguir o primeiro emprego de verdade, alguns loucos em prestar concurso, mas todo mundo com muitos planos. Nessa época eu estava quase pra sair da casa dos meus pais. Eu lembro que ela já tinha saído... ah sim, na verdade os pais dela se mudaram, mas ela não queria sair da cidade, então ficou naquela correria... dormia na casa dos amigos e ia atrás de emprego. Nessa correria ela conseguiu o emprego e o namorado. Logo ela foi morar com ele, afinal era o mais prático. Eu namorava com o Moreno – sorriu com saudade – a gente tava doido pra morar junto, mas ainda não dava...

— Pelo sorriso já vi que foi um grande amor... por que não deu certo?

— Porque ele fazia medicina, estava indo pra área da genética e eu também estava saindo da graduação e já entrando no mestrado, enfim... estávamos muito focados nos nossos estudos, e não queríamos atrapalhar um ao outro. Um homem lindo, alto, negro com uma história linda e carinhoso como ele só... Foi um grande amor. Nos damos bem, ainda nos falamos quando dá. Dai, eu desisti de sair da casa dos meus pais mais um tempo e adiei o plano de morar com ele, e também o plano de dividir um canto com a Tiemi e a Larissa, essa minha amiga.

— Aí ela foi morar com o namorado?

— Isso aí.

— E o que aconteceu?

— Bem, Larissa sumiu. Ninguém via mais. Éramos um grupo de umas sete pessoas, todos da universidade, basicamente. A gente saia todos os finais de semana, coisa de jovem né? Mas dai, ela estava sempre com o namorado. A gente dizia pra ela “mas chama ele também” mas ela não chamava, ou chamava e ele não queria ir, a gente não sabia... só que Larissa cada vez mais deixava de aparecer. Normal pra quem começa a namorar. Mas depois de dois meses sem dar as caras direito, a gente achou estranho. Alguns procuraram ela, mas ela estava ocupada com trabalho, estudo e o namorado.

— Vocês nunca viram o cara? – Rebecca parecia estranhar.

— Vimos sim! No inicio saíram com a gente algumas vezes, né? Em datas especiais, tipo aniversário ou coisa assim, nunca pra ir ao barzinho. O cara era bonito, quieto. Parecia gente boa, meio tímido. Mas era ciumento. Assim, nada que fosse tão incomum, me incomodava porque eu sempre me incomodei com isso, e meu relacionamento com o Moreno era muito, muito tranquilo... – Claudia parece tentar lembrar de algo – O que eu lembro bem, foi de um dia, que estávamos juntos e falamos sobre Larissa. Cada um falou sua experiência de tentar falar com ela, que ela não atendia, que não aceitava convite de ir à lugar nenhum, enfim... mas o nosso erro foi ter deixado de lado sabe? Ninguém se prontificou a realmente ir atrás dela, ir lá na casa, bater na porta ver ela cara a cara. Eram telefonemas, mensagens, recados, tentativas. Que nem foram muito numerosas. “Ah Larissa se encheu da gente, se a gente chama e ela não aparece, é porque não quer mesmo, prefere ficar com o namorado!”

— Duvido que ela tenha se enchido de você... você é uma ótima amiga. Por consequência, seus amigos deviam ser legais também...

Claudia sorriu enquanto encostava o ombro dela no de Rebecca. Mas logo o sorriso diminuiu e o olhar ficou vagando pela sala.

— É... mas... eu não tinha sacado que o problema da Larissa não era exatamente o cara, mas ela mesma. E na real, ninguém entendia porque alguém ficava com um cara que a isolava. Devia gostar dele, diziam. “tem gente que gosta de sofrer” disseram. Nossa, como somos cruéis na nossa ignorância – falou com grande pesar – como somos estúpidos quando jovens... uma hora é claro que descobrimos o que acontecia né...

— Ele impedia ela de sair? Estava controlando a vida dela? – Rebecca sentia um misto de alivio e peso no coração, ao mesmo tempo.

— Pior amiga... ele batia nela. Não tapas, mas socos, chutes... pra você entender, Larissa era uma menina de mais de um metro e setenta, esportista, de personalidade expansiva, comunicativa... quando isso chegou aos nossos ouvidos, a gente nem acreditou. Aonde que ela ia deixar isso acontecer? Duvidamos. Mas também não tocamos no assunto nem a procuramos pra saber porque, era tão constrangedor e invasivo. E dai vinha a dúvida: “mas se isso acontecia mesmo, por que ela deixava? Por que ela não reagia?” Fingimos que devia ser conversa, fofoca mesmo... eu tentei um dia falar com ela, mas não consegui. Ela tava arredia, não queria falar do assunto. Aí não insisti. O que eu podia fazer?

— Ah, Claudia...

Rebecca segurou a mão da amiga, ambas tinham os olhos marejados.

— Então... a família dela descobriu, e o irmão dela fez o que nós deveríamos ter feito; foi até lá, deu uma surra no cara e levou ela embora. Encontramos com ela depois, nós, as meninas do grupo, e ela comentou o que aconteceu – os olhos de Claudia estavam mais verdes devido ao olhar de choro – ela só precisava de alguém que fizesse algo por ela, porque ela mesma não tinha forças, entende?

Rebecca mordia seus lábios. Os olhos estavam vermelhos.

— Rebecca, não é a primeira história que eu ouvi, mas foi a que aconteceu mais perto. A gente acha que nunca vai acontecer, mas acontece... eu nunca mais tive coragem de olhar pra cara dessa minha amiga de verdade – Claudia virou-se para Rebecca e segurou em seus ombros, olhando-a no fundo dos olhos – Eu sei que tem algo errado com você. O que eu vi aqui é a prova de que algo está muito errado com aquele homem... amiga, por favor, me fala o que tá acontecendo?

Rebecca riu um pouco nervosa.

— Não, Claudia, não é nada disso... o Antonio não me bate nem nada assim!

— Eu não disse isso... mas alguém que trata a pessoa como propriedade pode acabar tendo comportamentos terríveis! No início minha amiga também não tinha problemas, e depois teve muitos! – Claudia falava notoriamente preocupada.

— Ele não me trata como propriedade, imagine... – falava desconcertada.

Claudia segurou firme nos braços da amiga, chegando a aproximar seu rosto do dela para encará-la.

— Becky. Vocês estão juntos há muito pouco tempo para ele vir aqui e falar sobre seu futuro profissional e agir como se tivesse poder sobre seus compromissos. Pense direito e me diga o que fez você ficar branca só de ver a cara desse homem.

Claudia afrouxou as mãos e se afastou de Rebecca.


Sua expressão era de susto, como a de alguém que é descoberta por contar alguma mentira. A boca entreaberta e arqueada pra baixo, as piscadas e o olhar que procurava alguma resposta em volta. Rebecca engoliu em seco.

Ela mentia para si mesma dizendo que não havia nada, até que acreditou. Foi apenas uma vez. Nada de mais. Estavam nervosos. Mas agora vem sua amiga lhe contar uma história terrível dessas. Ela já leu sobre isso, viu na tevê, filmes... mas nunca conheceu ninguém. Será que Claudia estava inventando? Na verdade isso não importava, instintivamente ela sabia que era assim que acontecia. A dúvida só era gerada pela vontade de negação.

Rebecca suspirou. Tinha sim algo errado. E se não fosse com Claudia, com quem ela poderia falar sobre isso? Diferente de suas colegas, ou mesmo sua mãe, a amiga talvez não fosse julgá-la.

— Eu não sei bem o que há... só que... – escolhia as palavras mentalmente, antes de dizer – alguns tantos dias atrás, tivemos uma discussão por um motivo idiota... ele ficou com ciúme, eu tentei explicar, dai ele me falou umas coisas assim... – precisou pegar um ar – sabe? Horríveis, me chamou disso e daquilo... eu nem me reconheci, fiquei irritadíssima! Também falei coisas pra ele – Calou-se por alguns momentos – foi quando ele me deu um tapa. Eu fiquei pasma. Logo ele se desculpou, disse que estava irritado.

— Daí ele foi um perfeito cavalheiro por alguns dias, fazia todas as suas vontades?

— Como sabe? – perguntou surpresa.

— Bem – sorriu – geralmente é o que acontece. Ele fez mais coisas?

— Na... não. – Rebecca pensou. Estava mentindo, mas não queria pensar nisso agora. No entanto a amiga apontou algo que lhe fez avaliar isso tudo – É mesmo muito pouco tempo pra um comportamento assim não é?

Claudia assentiu.

— Será que ele... que não foi só um momento?

— Do tapa? Pode ser que sim, pode ser que não, mas... o comportamento possessivo, minha amiga, tenha certeza de que não mudará... em pouco tempo ele vai criar muros em volta de você... mas há mais...

Claudia pareceu um pouco relutante, e isso atiçou a curiosidade e o receio de Rebecca.

— O quê?

— Eu... me desculpe, mas eu fui procurar saber e isso chegou até meus ouvidos... ele já foi casado, você sabia?

— O... como? Casado?

— Ele não te contou? – Claudia realmente se surpreendeu.

— Não! Ele até falou de um relacionamento duradouro, mas... Como você soube?

— Ah eu – riu – você me conhece, eu fucei aqui e ali...

Rebecca parecia incrédula. Claudia bufou e confessou:

— Certo, o Cunnings me contou! Eu perguntei algo pra ele porque vi que ele conhecia o Scaffa, já que se cumprimentaram lá naquela festa. Ele me contou isso, que o Scaffa foi casado. Sondei mais e descobri que parece que a esposa tinha feito uma denúncia, mas voltou atrás – inventou – Hoje pesquisei na Internet e descobri que ela saiu da cidade até... olha... você... – Claudia levantou nervosa, andou pela sala. Depois virou-se para Rebecca, que tinha a expressão abismada – Becky, eu não quero me meter na sua vida, mas se for preciso eu vou! Eu vou tirar esse homem de perto de você, antes que isso tudo piore e aconteça alguma coisa horrível! Eu não vou deixar nenhum filha da puta machucar minha amiga! Não posso deixar isso acontecer diante dos meus olhos e ficar impassível!

Rebecca levantou emocionada e foi até Claudia, as duas estavam balançadas. Aquilo tudo era tão absurdo, assustador. Claudia abraçou Rebecca, escondendo algumas lágrimas. Rebecca, apesar de muito assustada, estava aliviada.

— Obrigada minha amiga!

Claudia e Rebecca conversavam sobre que, de fato, era preocupante. Eles estavam apenas há dois meses juntos, e o comportamento de Scaffa foi bem drástico. Pensaram juntas, e Rebecca no final das contas, se convenceu de que não havia futuro. Era confuso e dolorido, ainda mais que ele, no inicio, foi perfeito. Mas a verdade é que, sendo sincera consigo mesma, ela tinha medo dele. Felizmente, a amiga falou com ela, estava tão confusa que começava a achar que era ela o problema. Como pode, uma mulher da minha idade, cosmopolita, criada numa casa tranquila, me deixar levar assim? Rebecca pensava isso todas as vezes que questionava seu relacionamento com Scaffa, e a conversa com Claudia lhe deu forças para ver que seus pensamentos estavam certos. Seu instinto estava certo. Ela não queria se submeter a Antonio Scaffa.

Amparada pela amiga, decidiu acabar com tudo naquele momento. A presença de Claudia lhe daria mais coragem e não deixaria desistir. Mas não queria vê-lo de novo. Tinha medo.

— Mas o Jimmy está lá fora!

— É verdade! – depois mudou a cara, com dúvida.

— E também, você pode falar que é amiga do Maguire! Ele vive aparecendo naquelas noticias horríveis de paginas policiais, todo mundo já ouviu falar do “paladino da justiça” alguma vez na vida.

— Mas ele é seu amigo, eu mesma só o vi uma vez!

— Não tem problema! Ele não se importaria, ainda mais que é pra ajudar. Ele é gente boa. Vai, liga pro homem e resolve tudo!

Segurando o telefone com as duas mãos, Rebecca estava resoluta, mas estaria mentindo se dissesse que por vezes não lhe passava alguma dúvida pela mente. Não por contestar a necessidade da decisão, mas por desconhecer as consequências e imaginar algumas tantas. Todas terríveis.

Ele atendeu.

Ela começou com alguma gaguejada, mas ao olhar para Claudia a sua frente, apoiando-a e lembrando as palavras que havia ensaiado, ela conseguiu falar tudo o que queria.

Do outro lado do telefone, Scaffa estava tão pasmado que a reação foram alguns berros, mas acabou mais ouvindo do que protestando, tamanha surpresa pela atitude de Rebecca. Ela finalmente colocou um ponto final em sua história com aquele homem. E Claudia através de gestos fez questão dela frisar para ele que, se a procurasse, iria à polícia. E era amiga pessoal de Aidan Maguire. “Sim, o tal policial herói da cidade”. Desligou.

– Foi mais fácil do que imaginei!

– Não disse que você podia?

Mas na verdade Rebecca tremia.

Claudia a abraçou forte e a amiga enterrou sua cabeça em seu peito, escondendo o rosto. Enfrentar o mundo personificado na figura de um amante violento, não é fácil.

Claudia decidiu ficar por lá aquela noite e avisou a Jimmy para entrar na casa. Assim, as duas estariam seguras.


Quando Scaffa identifica o inimigo.


Passou todo o final de semana com Claudia.

Sábado de manhã saíram e foram para o novo apartamento. Rebecca ajudou em alguns ajustes finos e passaram boa parte dos dias fazendo compras de supermercado mesmo, pois Claudia iria se mudar naquela semana.

Teria sido uma ótima distração, se não fossem as mensagens que Scaffa mandou durante aqueles dias. Rebecca tomou cuidado para não deixar que Claudia percebesse que ela estava verificando o celular. Ainda se sentia envergonhada por tudo. No final do domingo, voltou para casa quando soube que os pais já estariam lá.

– Tem certeza Becky? Você pode passar uns dias comigo, se precisar...

– Está tudo bem amiga, com meus pais lá, eu estou segura.

No fundo ela duvidava disso. Mas o que adiantaria fugir? Tentou pensar no que a própria Claudia faria nessa situação, então decidiu tentar ficar firme e manter sua rotina.


Foram dias difíceis. Ligou várias vezes. Deixava mensagens.

Ele cobrava explicações, achou um absurdo ela tomar aquela atitude de terminar com ele por telefone. Isso não era algo digno de se fazer, dizia que não era coisa dela, uma mulher íntegra, dizia que estava sendo influenciada. Depois, o tom das mensagens era ameaçador; nenhuma mulher faria isso com ele, ela iria pagar por aquela humilhação. E também havia algumas onde ele se mostrava arrependido; pedia para encontrar com ela, queria se explicar. Ele ainda a amava e queria ser aceito de volta.

Aquilo tudo a deixava muito confusa. Não podia negar que sentia algo por ele, não era só medo pelas atitudes, afinal ele tinha seu lado bom. Como pode um homem que a tratava tão bem, lhe presenteava com delicadezas como flores e joias, levava a lugares românticos, cuidava e se preocupava como nenhum outro fez antes, de forma tão emotiva, ser completamente mau? É claro que diante a negativa dela, ele se transformou e mostrou um lado terrível, mostrou que era capaz de machucá-la. Mas seria mesmo um tapa algo tão grave?

Depois do momento de carência, voltava à realidade. O tapa foi a manifestação física, mas havia várias outras pequenas violações, como as censuras ao que gostava ou fazia ou os olhares ameaçadores quando algo lhe desagradava. Rebecca no fundo sabia que, se ele tinha aquela capacidade de ser tão doce, tinha em mesma medida a capacidade de ser cruel.

Estava pensando em tudo, isso naquele exato momento em que, sentada em um dos bancos próximo ao chafariz do pátio externo da Blue Velvet, mexia no novo aparelho celular que havia comprado (na intenção de se livrar do número antigo e evitar o contato de Scaffa). Era por volta de uma hora da tarde e ela saiu para o almoço um pouco antes somente para buscar o aparelho. Parou para esperar os colegas e configurar o novo telefone a seu gosto, quando ouviu alguém se aproximar.

– Boa tarde, Rebecca.

Ao levantar o rosto, ficou branca imediatamente. Scaffa estava ali parado ao lado dela.

O homem abriu um sorriso discreto. Levantou as sobrancelhas, cumprimentando-a timidamente. Quando ele deu um passo se aproximando, a única reação dela foi a de levantar.

– Eu sinto muito que tenhamos chegado a esse ponto... de você sentir que eu não a amo ou quero proteger.

Sua fala tinha alguma coisa de arrependimento e constrangimento diante da reação defensiva nítida de Rebecca.

– Eu... nós já conversamos. Eu gostaria que ficássemos assim, por favor.

– Falamos coisas horríveis um para o outro pelo telefone. Isso não é conversa. Não deveríamos ter deixado seguir dessa maneira. Eu realmente gostaria de me sentar contigo com calma, pedir desculpas e conversar de verdade.



Acabaram de sair do prédio e ganharam o pátio externo rapidamente, estavam com fome e toda vez que saiam juntos, acabavam levando mais tempo. Ninguém achava ruim, o papo era divertido, mas por conta disso precisavam correr para chegar logo na lanchonete e poder aproveitar melhor a comida e a companhia.

Vinham pelo elevador e corredores decidindo onde comeriam. Estavam de acordo que, apesar de estarem curiosos sobre a nova sanduicheria self service, era bem mais garantido ir a lanchonete de tacos da esquina. Porém assim que saiu do prédio, Claudia procurou por Rebecca e viu algo que não gostaria: Scaffa. Precisava tirar aquele homem do lado da amiga, mas também não queria fazer uma cena. Teve uma ideia.

– Pessoal, esqueçam os tacos, vamos lá tentar algo novo!

– Ah, Cazarotto, vamos perder tempo montando o sanduíche!

– Vamos fazer um desafio; quem demorar mais pra montar paga o sanduiche dos colegas!

– Estimulando a competição entre colegas, chefa? Tsc tsc tsc

– Há há há, ta certo então! Mas a Rebecca já foi pra lá, não vamos deixar a colega comer sozinha, hoje é dia de comer em grupo...

– Hum, é mesmo, vê se não é a Stein ali...

– Está esperando a gente. Nah, vamos logo lá, assim conhecemos o tal lugar...

Felizmente a manobra deu certo. Assim, Claudia acompanhada de quatro colegas seguem em direção à tal sanduichería e por consequência, na direção de Rebecca, pois ficava no mesmo caminho.

Rebecca percebeu a aproximação dos colegas e sentiu um certo alivio. Ela sabia que nada de mal aconteceria assim em público. Os colegas se aproximaram e a cumprimentaram.

– Não precisa mais esperar, chegamos.

Claudia comentou, entre os cumprimentos. Rebecca entendeu o recado.

– Finalmente! Ahn, com licença, eu tenho que ir...

E assim, a pequena cavalaria resgatou a mocinha.

Ao passar por Scaffa, ele reparava nas pessoas e seu olhar cruzou com o olhar de Claudia; triunfante e desconfiado. Ele a olhou de forma dura e com tamanha fúria, que a fez desviar o olhar. Realmente aquele homem dava medo.

– Tudo bem?

– Sim. Estava muito tranquilo, queria apenas pedir desculpas.

– Rebecca – a segurou por uns instantes, deixando que os colegas seguissem um pouco à frente, e manteve o tom baixo – nunca fique sozinha com ele. Esqueça isso de educação, você não deve esse tipo de coisa a um crápula desse. Corte qualquer contato amiga, é o melhor.

Rebecca concordou. E elas voltaram a se juntar ao grupo.



A primavera era um dos climas mais agradáveis para a cidade. Não era absurdamente quente, nem tão frio, as pessoas se animavam para andar pelas ruas, então, elas ficavam sempre cheias, mesmo nos finais de semana.

Foi pensando nisso que ela cedeu aos insistentes convites. Em uma noite dessas ao chegar em casa, se deparou com um ramalhete de rosas brancas e o pedido para apenas tomarem um café em um lugar público, numa tarde de domingo. Talvez fosse o necessário para finalmente acertar tudo.


Ela chegou na hora marcada, seria um almoço em uma das trattorias preferidas deles. Ela sabia que Scaffa a tinha convidado para lá propositalmente, pois foi o primeiro lugar que saíram juntos para um jantar romântico. Quando chegou ao lugar, ele já estava lá, como sempre. Era o perfeito cavalheiro, chegava pelo menos meia hora antes, se levantava para puxar a cadeira, abrir a porta do carro, dentre outras gentilezas típicas do cavalheirismo; fazia de tudo por sua dama. Ela poderia fazer tudo aquilo sozinha, mas como achava charmoso essa dedicação por parte dos homens; muitos deles haviam perdido essas características. Antonio Scaffa as mantinha, como bom estereótipo que fazia questão de ser.


Scaffa deixou que ela escolhesse os pratos, e no momento que iria escolher a bebida, ela interveio:

— Eu preferia um vinho branco.

— Mas esse cabernet é ótimo, além do que, combina com o prato que escolheu.

— Eu quero o branco, mesmo assim.

Ela fez de proposito. Queria ver até aonde iria a suposta paciência dele, ao ter que atender à vontade dela em detrimento da sua. Para sua surpresa, ele, que costumava manter sua vontade até nas mínimas coisas, pediu o que ela sugeriu.

Mas ter o poder de escolha sobre um vinho é uma coisa, outra é decidir se quer ou não manter uma relação com um homem, e ser atendida por isso. Logo que trouxeram o vinho, Rebecca quis iniciar a conversa. Estava com pressa de se livrar desse compromisso. E Antonio percebia isso, o que o deixava levemente incomodado, ao que se podia notar.


Ao final do almoço sufocante, onde Scaffa passou falando sobre coisas que antes a encantavam, mas que agora nenhum efeito faziam, ele finalmente mostrou seu intuito real:

— Quero levar você a um lugar especial.

— Na... Antonio, eu... me desculpe, mas não tenho interesse nisso. Aceitei vir almoçar apenas para que fiquemos bem, enquanto duas pessoas adultas... mas não há interesse em... bem...

— Então, você quer acabar com o que há entre nós?

Ele não poderia ter sido mais certeiro. Ela queria acabar sim, especialmente com o ciúme, o controle e o medo. Rebecca não queria ter isso entre ela e outra pessoa nunca mais.

— Não damos certo. Somos pessoas diferentes, com ideias diferentes...

— Claro que não! Nós dois acreditamos no casamento, queremos ter filhos, cuidamos das nossas famílias, valorizamos isso. Não tem sentido o que está falando... isso com certeza é coisa daquela porca puttana! Você precisa andar com mulheres direitas, Rebecca, não com essas largadas, que não tem família nem um homem.

— É isso! – disse irritada – É exatamente disso que estamos falando. Eu não concordo com você! Eu não penso isso. Você nem me conhece realmente! Eu na verdade devia ter ouvido ela e não ter aceitado nenhuma aproximação sua...

Scaffa, ofendido com a atitude de Rebecca, agora abaixa a voz em um tom sinistro:

— Você foi longe demais pra simplesmente me largar assim. Nenhum homem aceita isso.

Rebecca o olhou assustada. Que homem doente! Não se conheciam mais do que um par de meses e ele está falando isso?

— Preciso ir pra casa. Combinei de passar a tarde com meus pais – deu como desculpa.

Donna, deixe de frescura e me acompanhe até aonde quero ir. Mandarei um recado pros seus pais, cuidarão para que eles não se preocupem com seu atraso. Você não vai querer me fazer essa desfeita, vai?

Desconfiava que talvez estivesse mesmo diante um psicopata, ou talvez algo pior: um homem orgulhoso, apoiado por pessoas perigosas.



Isso não ficará barato


Era para o apartamento ter ficado pronto na semana passada, mas devido a alguns imprevistos com algumas regras do novo condomínio, isso não teria sido possível ainda. Ao menos ela estava com pelo menos mais duas semanas de prazo pra realizar toda a mudança.

Apesar de tudo, Claudia acordou com uma disposição ótima nessa segunda feira. Passou uma semana completamente livre da presença do chefe, o que no fundo a fez pensar no que ele estaria fazendo, especialmente porque uma das administradoras da empresa o havia acompanhado na viagem. Será que ele age com outras funcionarias da mesma forma que age comigo? Mas logo ela se recriminava; afinal o que interessava a ela saber disso? Estava disposta a não dar trela ao Cunnings. E dado o tom da última conversa, talvez ele tenha finalmente entendido que ela não estava disponível. De qualquer forma, estava com bom humor para a reunião que teriam, pois seria uma apresentação de um novo projeto de software de inteligência artificial para robôs desarmadores de bombas. Eles teriam que verificar o orçamento pedido. Estava curiosa pela apresentação.


Como todos os dias, Jimmy estacionava na frente do pátio externo, pois não tinham garagem para os funcionários, às vezes, nem os diretores podiam usar o estacionamento interno. O que foi o caso de hoje, ao sair do carro, Claudia percebeu Seth Cunnings alguns passos à sua frente, acompanhado de seu segurança.


Ao olhar à sua volta, como sempre fazia devido ao saudável hábito de checar os lugares por onde andava, percebeu Cazarotto logo atrás. Educadamente se deteve a fim de que ela tivesse tempo de se juntar a eles. Ela parecia estar com ótima disposição, e ele então estendeu a mão para cumprimentá-la a fim de seguirem juntos ao prédio. Diante da aproximação do chefe, Jimmy sabia que devia recuar alguns poucos passos.

No momento em que se virou para trás e segurou a mão de Claudia, sua intuição lhe alertou e seus ouvidos perceberam uma suspeita freada na rua. Sua mente em questão de segundos decodificou os sinais e lhe deu o tempo preciso para puxar Claudia para si e junto a ela se jogar no chão; sua percepção treinada antecipou os tiros de uma pistola automática 9mm disparados por uma pequena fresta da janela de vidros escuros de um carro que havia parado abruptamente rente ao pátio, há poucos metros deles.

Enquanto Seth e Claudia ainda caiam ao chão, Jimmy se precipitou para cobrir os dois, seguido do outro segurança. Miller, o segurança pessoal de Seth focou seu olhar na origem dos tiros. Foram apenas segundos, a arma foi descarregada em um gesto de certo temor diante a presença de guarda costas, logo o motorista arrancou a fim de evitar uma identificação e captura.

Os braços reduziram o impacto da cabeça contra o concreto e o som dos tiros da pistola automática se misturaram ao zumbido forte dentro de seus ouvidos. Sentiu a dor do impacto do peso de Cunnings em seus ombros antes de realmente entender o que acontecia.

Seth e Jimmy gritavam qualquer coisa um com o outro, instruções ou algo assim. Foram segundos de suspensão e perda completa da audição enquanto sentia seu corpo ser levantado por alguém. Ou alguéns. Apesar de estar correndo em direção à segurança do carro de Cunnings, Claudia não sentia suas pernas, percebia apenas o calor de dois corpos ao seu lado, que a seguram pela cintura e ombros.

Sentiu o corpo sendo jogado contra o estofado de couro de um carro desconhecido. Sua audição já estava de volta, mas sua respiração continuava acelerada e seu coração batia tão forte que conseguia senti-lo balançar seu corpo.

– Para onde senhor?

– Pegue aqui à direita, passe por cima da calçada mesmo, ali é a entrada do estacionamento privado.

– Foram... tiros?

Após as primeiras palavras sua mente se organizou: Estava, possivelmente no carro de Cunnings, com ele ao seu lado e Jimmy ao volante; Momentos antes estavam no pátio da empresa e alguém atirou neles.

– Está tudo bem Claudia, você está segura agora!

Sua mão trêmula estava sendo segurada por Seth. No entanto ao mesmo tempo que sentia uma gratidão sem tamanho, brotou uma imensa raiva, misturada com medo. Seu olhos marejaram.

– Não é p-possível... por que essas coisas acontecem com você?

– Mas isso não foi pra mim.

Claudia olhou para ele atônita.

– C-como a... assim?

Percebendo que, ao afastar a suposição de um atentado contra ele, ela entendeu que era algo com ela (e possivelmente fosse, mas do que adiantaria falar sobre isso agora?), ele começou a pensar no que falar. O ideal era acalmar a moça, que estava tremendo inteira.

– Querida, não fique assim. Sei que foi assustador...

Claudia prestava atenção a cada palavra e expressão de Seth, o que o fez perceber o quanto ela parecia confiar em estar ali com ele naquele momento, e também no quanto se sentia frágil. Os olhos grandes pareciam mais claros devido à vermelhidão crescente à sua volta.

– Vamos descobrir o que houve.

– Se me permite, isso foi uma ação amadora, nada de grave teria acontecido com a senhora, tenha certeza!

Falou Jimmy, tentando acalmar Claudia. Pelo espelho do carro Seth e Jimmy trocaram olhares de cumplicidade. Seth concordava com ele tanto na análise, quanto no gesto de empatia para com Claudia.

Ela ouviu tudo com demasiada atenção. Balançava a cabeça afirmativamente diante as palavras de consolo deles. Eles deviam saber do que estavam falando. Encostou-se no banco e não se importou de estar rente a Seth, que lhe segurava a mão e tinha o outro braço em volta de seus ombros. Eles falavam e ela tentava se manter. Quando se fez silêncio, Claudia teve plena consciência de que, se não fosse por aquela mão, ela poderia estar morta. Seth Cunnings salvou sua vida. Virou-se para ele, queria agradecer. A voz dela saia embargada em um começo de choro nervoso. Algumas palavras quase não podiam ser entendidas devido a isso, e a mistura com seu idioma materno. Sua respiração começa a alterar, diante da tentativa de controle fracassada. Claudia irrompeu em um incontrolável choro alto e nervoso.

A única coisa que Seth poderia fazer era abraçá-la, torcendo para que logo ela se acalmasse. Se havia uma coisa que o deixava sem ação era ver uma pessoa querida fora de controle desse jeito, ele ficava completamente impotente diante o pranto dela.



O banho demorou quase uma hora, mas mal sentiu o tempo passar.

Estava agora num estado de torpor estranho, semelhante ao que vivenciou na situação do sequestro. A diferença, talvez, estivesse no fato que por alguns momentos dividiu a angústia com aquelas outras mulheres. E que agora, o susto foi maior. Quando lhe apontaram a arma, ela ficou com medo, mas ainda pensava “se me ameaçam, é porque querem me manter sob controle” e daí colaborou o máximo que pode. Mas agora não foi uma ameaça. Simplesmente dispararam. Ninguém disse “faça isso, senão atiro”. Ela não teve a oportunidade de negociar nada. Nem mesmo saberia como se defender. Se não fosse por Seth... claro, ela lembrou que o guarda costas estaria com ela e a defenderia, mas quem o designou? O próprio Seth. Mas há algo que ela não pode ignorar; aquele homem se colocou numa posição de risco para defendê-la. Sua reação instintiva poderia ser a de proteger a si mesmo, o que seria natural. Poderia também ser a de deixar o guarda costas agir (ela mesma faria isso, pois não teria experiência para fazer de outra forma), mas o que ele fez, foi proteger a pessoa que estava ao lado dele. Esse homem tinha colhões e era generoso. Pode até ser que ele fosse um homem perigoso, como ela realmente estava convencida de que era, mas ele salvou sua vida, ela jamais esqueceria isso.

Sentada no sofá da sala, rodeada pelo barulho da cidade que atravessava a janela, Claudia pensava em tudo isso que lhe acontecera. Pensou em ligar para Rebecca. Pegou o telefone e discou, mas a amiga não atendeu. Naturalmente, afinal estava ainda no expediente. A amiga sequer teria notado a ausência dela, já que se estivesse trabalhando, possivelmente estaria na reunião.

Foi quando a campainha tocou. Ela se levantou e abriu a porta.

O detetive Maguire entrou com seus passos largos de sempre:

— Eu trouxe umas coisas...

Maguire levantou uma sacola onde pareciam ter algumas coisas de padaria. Pães e bolos. Ela agradeceu e sorriu com o melhor ânimo que conseguia. Pegou as coisas e foi para a cozinha. Ele se ofereceu para preparar algo para ela, mas Claudia preferia ela mesma fazer o café. Dizia que a acalmava observar o processo da água quente passando pelo filtro, o aroma subindo e o barulho do café caindo na garrafa.

— Minha rainha... o que há com você?

Claudia não tirou os olhos do café, e pausadamente contou o ocorrido.



Seth ficou balançado quando a moça, em um momento de desamparo, lhe perguntou se ele não iria com ela. Mas ele não devia, precisava apurar os fatos o mais rápido possível. Devido aos últimos acontecimentos, ele sabia que estava sob ataque de seu inimigo. Seth Cunnings orientou que a deixassem em casa, enquanto ele iria checar pessoalmente com a equipe de segurança do prédio.

Na sala de segurança, Seth se encontrou com os chefes de segurança da empresa, que já foram informados sobre o que iriam fazer. Os dois responsáveis se apressaram em adiantar o ocorrido, enquanto mostravam as imagens no tecnológico monitor da sala da chefia de segurança interna.

— Carro barato, arma barata, tiro mal dado. Isso foi feito quase a esmo, rapaz – Silva, um senhor vigoroso apesar de sua baixa estatura, parecia tranquilo.

— É, Seth... isso não tem nada a ver com qualquer coisa influenciada por algum inimigo seu. Sabemos bem que se quisessem te assustar, fariam outra coisa. – completou Christus.

— Queriam acertar ela? – Seth parecia confuso.

— Pois é... é o que parece. Ou dar um susto.

Se olharam brevemente, como se conversassem sem palavras. Todos pareciam não ter muitas ideias sobre os motivos disso.

— Mas então o que tem de errado com a diaba? – Silva perguntou, arretado.

— Chequem as câmeras públicas. Descubram quem é esse cara.

Seth saiu da sala compenetrado. Era bem esquisita essa situação. Pelo sim pelo não, era melhor colocar essa ocorrência em panos limpos. Não se pode admitir uma ameaça aos chefes da empresa, simplesmente.



— Trabalhar nessa empresa parece mais perigoso do que deveria... – Observou Maguire.

Se encararam em silêncio por alguns momentos. Claudia suspirou cansada, Maguire abaixou os olhos enquanto entortava a boca, descontente.

Claudia começou a sentir dor de cabeça. Parecia que tudo estava se misturando em sua mente. Enquanto Maguire se perguntava o que afinal seria essa empresa realmente; haveria alguma coisa além do que é especificado em seu registro; segurança e tecnologia?


Alguns minutos depois, a campainha tocou. Quando Claudia abriu a porta, Seth Cunnings estava lá. Surpresa, ela o convidou a entrar.

— Eu vim saber como você está – entrou com um sorriso confortador, que praticamente sumiu assim que passou por Claudia para entrar no apartamento e deu de cara com Maguire sentado no sofá.

Ao ver aquele homem entrar, levantou-se vagarosamente, a principio com certa incredulidade diante a surpresa da presença dele, depois, com o intuito de ocupar todo o espaço daquela sala e delimitar assim um território hostil a Seth Cunnings, pois pertencia a ele e seus corpulentos um metro e noventa. E isso incluía Claudia, sua segurança e seus interesses. Seth percebeu o movimento de Maguire e respondeu mantendo sua pose elegante, mas instintivamente estufou o peito.


Claudia ficou feliz em vê-lo, era atencioso da parte dele.

— Eu estou bem – ela tinha uma expressão amena.

— Dentro do possível, naturalmente...

Maguire se intrometeu notoriamente hostil.

— Claro – Seth mal virou seu rosto para Maguire ao falar, e continuou sua fala focada em Claudia – Eu vim reafirmar minha posição, e dizer que já estamos com algumas análises. Antes do final dessa semana descobriremos o que originou tudo isso.

— Espere, se vocês tem acesso a isso devem levar a policia.


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