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INTERSECÇÕES

FRAGMENTOS 0.5 - DÉRCIO




UMA SÉRIE LITERÁRIA DE

João Dias Martins



Edição de Autor

2017




Dércio participa num jogo de cartas e a coisa não está a correr bem para o seu lado. Até aí, nada de novo. Ele não está ali por ser bom jogador; está ali por não ter outra opção. E quando assim é, será assim tão surpreendente que acabe a partida ainda mais encurralado?

Quando a única hipótese que lhe resta implica quebrar uma promessa feita ao seu irmão, Dércio vê-se obrigado a aceitar. Afinal de contas, Laurénio já o perdoou tantas vezes… Mais uma não fará grande diferença. Ou fará?




Fragmentos: Dércio, de João Dias Martins

Série: Intersecções (Temporada 0, Episódio 5)

Edição de Autor, 2017


https://pessoaqueescreve.wordpress.com/interseccoes/temporada0/e5


© 2017 Joel G. Gomes


Texto: João Dias Martins

Capa: Joel G. Gomes



O LIVRO É TEU, MAS A HISTÓRIA É MINHA



Esta história (como qualquer outra) deu-me trabalho a escrever. Foi preciso pesquisa, tempo e paciência para que encontrasse as palavras adequadas. Mesmo que não aprecies o resultado final, valoriza esse esforço comentando esta história, partilhando-a e incentivando outros a comentar. Da minha parte fica um agradecimento e uma promessa de poder retribuir com mais histórias, além das que podes descobrir em www.pessoaqueescreve.wordpress.com e em várias plataformas.

(E se por acaso não obtiveste este livro da maneira mais lícita, que isso não seja razão para não dares o teu comentário.)




ÍNDICE



1

2

3

4

AGRADECIMENTO

SOBRE O AUTOR



1



Bairro do Futuro, Vale da Amoreira

10 de Janeiro de 2009, por volta das 23h00


Estavam todos a olhar para ele. À espera que ele tomasse uma decisão. Dércio olhou para as cartas que tinha na mão, para as cartas que estavam em cima da mesa e para a pilha de fichas que, por milagre, não tombava. Fez um esforço para se lembrar das regras que lhe tinham sido explicadas no início do jogo. Tentou adivinhar que cartas teriam os seus oponentes. Até tentou (como se isso adiantasse grande coisa naquela fase do campeonato) perceber por que razão aceitara participar num jogo no qual não tinha qualquer experiência.

E, claro, lembrou-se do dinheiro. Por muito que ele achasse e quisesse acreditar que a sua vida tinha mudado, que ele tinha mudado, continuava tudo na mesma. Por muitas razões e justificações que pudesse arranjar, era sempre pelo dinheiro que ele fazia asneiras daquelas.

O Velho aclarou a garganta. Não era catarro (embora fumasse três maços por dia), era um aviso. E Dércio entendeu sem necessidade de mais explicações: tinha de jogar ou passar.

«Passo», disse.

«Não podes passar», disse o Careca.

«Tens de jogar esta», disse o Fininho, cuja alcunha, ao contrário dos comparsas, nada tinha a ver com o aspecto físico.

Dércio notou uma troca de olhares entre os dois jogadores. Sabia que estava a ser tomado por parvo e a culpa disso era apenas e só dele. Se ao menos tivesse prestado atenção às regras… Não que isso fosse adiantar muito, pois tinha a clara sensação de que as regras explicadas não eram aquelas pelas quais estavam a jogar.

Acontecera tudo tão rápido. Ou, talvez não exactamente rápido, talvez inevitável fosse o melhor termo. Ele precisava de dinheiro com urgência e tinha vindo pedir um empréstimo a quem ele sabia que tinha para emprestar e que não faria perguntas. Como o santinho do seu irmão. Por outro lado, o seu irmão não lhe partiria as pontas dos dedos à martelada se por acaso não lhe pagasse dentro do tempo acordado.

«Hoje», disse o Velho, já muito para lá do aviso normal.

Dércio tornou a olhar para as cartas, escolheu jogar a Dama de Paus e preparou-se para o pior.

O Velho cerrou os lábios e jogou um 7 de Espadas, o Careca um Ás de Ouros, o Fininho um Rei de Copas.

Ninguém se mexeu para recolher as fichas.

«É teu», disse o Velho.

Dércio olhou para ele, olhou para as cartas. Entendia o que ele estava a dizer, mas não percebia como era possível.

«Ganhei?», perguntou, cada vez mais convencido de que estava a ser engordado antes de ir ao forno.

«Dois mil paus», disse o Careca. «Mais coisa, menos coisa. São teus.»

Dércio não se mexeu para apanhar o prémio, embora a sua vontade fosse fazer isso e zarpar dali para fora. Mas por muito tentado que estivesse — e estava — continuava a tentar perceber como é que ganhara aquela vaza.

«Queres o dinheiro ou não?», perguntou o Fininho.

Antes que Dércio pensasse em responder, o Velho fê-lo por ele.

«Talvez o nosso amigo não esteja satisfeito com o resultado.» Olhou para Dércio até este olhar para ele. «Não te chega isto? Queres mais, é?»

Dércio não precisava de fazer contas para saber que só metade daquele dinheiro já chegava para resolver os seus problemas e ainda sobrava. Era melhor ficar por ali.

«N-não», apressou-se a dizer. «Assim está óptimo.»

Quando ia para jogar as mãos ao bolo, sentiu umas manápulas fortes e bojudas agarrarem-lhe o pulso com firmeza. Era o Fininho.

«Nós queremos a desforra», disse o Velho.

Dércio olhou para os três tubarões sedentos de sangue: o seu sangue.

«Não tenho mais nada para apostar», disse Dércio.

O Velho apontou para o bolo. «Disparate. Tens isso tudo para apostar.»


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